Curriculum Vitae

Nasci em 1935
de parto normal.
Nunca mais voltei a minha cidade natal.
(hoje a visito pela internet.)
Meu pai era farmacêutico.
Minha mãe professora.
Marina Vázquez, minha primeira professora,
(todo dia penso nela)
Me insinou a ler e escrever.
Vicenta, minha tia, me insinou a desenhar letras.
Os professores me ensinaram a pensar
(antigamente era assim)
a duvidar e questionar.
Meu melhor amigo, naqueles meus primeiros anos, era um judeu,
(foi minha primeira e doce convivência com a diferença) aprendemos juntos a andar de bicicleta.
(o dia que acabou a segunda guerra Papú, o Pai de meu amigo, saiu na rua aos gritos com bandeira celebrando a derrota nazista.)
Aos 5 anos lia gibi.
Vicenta, minha tia, lia pra mim e pra ela tambem, As Mil e Uma Noites.
(Leio até hoje e tenho todas as edições em espanhol que posso comprar)
Aos 8 anos vi um filme pela primeira vez levado pelo meu pai.
No colégio secundário adorava história e literatura.
Na Universidade aprendi leis e códigos. 
(História me fascinava e me fascina)
O Cinema volta a mim e começo a estudar-lo.
Agora, olhava a vida por um visor. 
Conheci a rua e as lutas. Juntas. 
Falando em rua, um dia ajudei atravessar uma a um cego e nunca mais o larguei, continuamos atravessando até hoje as ruas infinitas.
Jorge Luis Borges, esporadicamente nos dava aulas, e que aulas.
(Aprendi, com ele, a olhar o outro lado da vida, além do espelho e que só ele via) 
A porta da minha república, onde também estudávamos, não tinha chave nem ferrolho estava escancarada a poetas, artistas, músicos, trovadores e perseguidos, banidos e exilados. Havia sempre comida quente e uma cama e até encontrávamos uma saída de dia ou de noite. 
Aos 18 conheci pela primeira vez uma grande Metrópole.
Sozinho. 
Amei amantes, namoradas e esposas, as guardo todas no meu coração. Algumas não virão mais, mas estão vivas na minha memória. 
Lembro de todos os sorrisos e de todas as lágrimas.
Sim, sei que fui injusto e amigo.
(Please, Não me condenem.)
Sei, também que nunca esqueceram de mim.
Sei!
No Natal lembram de mim. 
Andei por todos os caminhos e em todas as direções
(Em aviões, navios, trens, carros, bicicletas helicópteros e a pé)
Dormi em masmorras e nos melhores hotéis.
Passei fome e comi comidas deliciosas.
Fiz filmes que ficaram por aí esquecidos. 
Tive tragédias.
Grandes tragédias, O velho Rodolfo e a Carmen, meus pais, foram de avião ao céu e nunca mais voltaram.
Como sinto saudades!
Gostaria continuar a conversar com eles.
- Minha mãe diria que fui um desobediente.
Meu pai, falaria novamente, que na AÍDA da Renata Tebaldi fora melhor que a Callas. Hoje, eu lhes diria que ambos estão certos e com a razão. 
A propósito, aos 12 anos vi e ouvi a Callas cantar. Ela passou perto de mim na saída do Colón, deixou um rastro de perfume no ar, era uma espécie de
Floeur de Rocaille da época um aroma só para as Deusas.
(Há tragédias que só o fim apaga.)
Juro, é muito duro ser órfão de amigos queridos no infinito.
Todas as ruas da dor argentina conduzem aos cemitérios
(Ainda me perguntam por que não volto lá!) 
Passei em Estocolmo 181 dias e 181 noites e ganhei um grande amigo de lutas o ERICK, forte como um viking, suave, prestativo e humano como um escandinavo, juntos preparamos um salmão no natal de 84 e abraçamos Ulof Palmer. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Olof_Palme)
Naveguei o Báltico em noite escura com meu amigo e xará Konder, visitei a catedral enterrada na pedra em Helsinski e me deliciei com a sinfonia de Sibelius. 
Conheci Moscou no inverno. 
Em Leipzig distraído, andei por cima das lápides da família Bach.
(Foi involuntário continuo pedindo desculpas até hoje cada vez que ouço as suítes para cello de Johan Sebastian.)
Um dia inteiro passei no Vaticano para ver o teto da Capela Sistina, só sai quando o guarda, pelo braço, me indicou que o dia tinha acabado. 
Minha amiga loira,  generosa que é, um dia, dirigiu ate Salztburgo, porque eu queria conhecer a Cidade e a casa do Mozart
(queria encontrar o fantasma Dele)
Ela dirigiriu impecavelmente um Audi do ano,  matou sua curiosidade andarilha e eu tirei uma foto.
o Neruda disse que viveu, sim.
Eu peço mais da vida. Muito mais.

Rodolfo Felipe Neder, 2009